terça-feira, junho 29, 2010

o tempo

Sentaram-se à mesa para se olharem. Ver quem aguentava ficar em silêncio mais tempo. Uns começaram a passar as mãos pela mesa envelhecida, esventrada aos poucos pelo oxigénio que entrara lento, lapidar, onde havia pedaços escurecidos, falhas, veios, farpas de madeira a querer sair. As mãos passeavam, vagarosamente, os sulcos, onde, certamente, moravam restos e memórias de outros momentos assim.

Alguns olhavam-se. Ela evitava os olhos dele. Ele os dela. Ele os da outra. A outra os dos outros e todos se fechavam, sepultando, momentaneamente as palavras. Ela verteu vinho, tinto. A gota deslizou pelo copo, livre, vagarosamente até à ponta da impressão digital do indicador dela. Chupou a gota. E houve menos silêncio. Sorriram. Qual será o ruído que fazem os músculos de um movimento assim, a exercitar o quadro do quase-riso? É quase-riso. Continuou a valsa lenta do néctar de Baco, invejoso certamente, de não lhe poder provar, também, as texturas das carnes dos lábios. Um a um, os copos foram-se enchendo, também de ruído líquido. Glac. No copo. Beberam. Cada um a seu tempo. Fecharam os olhos. Ouviram-se. Veio o respirar. Haveria menos silêncio. Há sempre menos silêncio quando se fecha os olhos. 

Ouviram-se lágrimas. Haveria, assim, menos silêncio. Os olhos fechados. A venda voluntária. A ausência. E ouviu-se o calor. Haveria menos silêncio. Ela acendeu a vela. O fósforo. Um, dois, três. Ela nunca teve aptidão para mexer nos fósforos. Ele cedeu-lhe o isqueiro. Olharam-se. Um olhar assexuado, ainda que no silêncio, nessa cadência necessária para ler sentimentos. A vela: haveria vela. E uma chama bruxuleante a dançar no ar. Veio o distúrbio. A primeira imagem do distúrbio e da complexidade do tique-taque que lhes pulsa. Ela quebrou o silêncio, que já não havia. Haveria, por isso, menos sossego. Quantos ritmos tem um sossego? O tempo. Ela falou do tempo. Ele reduziu-o a uma série de equações físicas. Ela emprestou-lhe a palavra falando das equações químicas. Como se o tempo fosse só isso: energia. O tempo é energia, bradou. 

Nada: o tempo é uma linha escorreita que nos leva à perdição. Por maus caminhos. Para a incompletude dos projectos que vetamos. O tempo é boicote. Escapes. Saliências que não vemos. Não poderia, ele, discordar mais. O tempo é ausência. É abnegação daqui para existirmos. Nada. Não queria as divagações. Não queria a Filosofia. Não queria a Teologia, ou outra qualquer teoria transcendental. O tempo é aqui. É isto. Vê! Não. O tempo é perda. É o exacto pedaço que vemos, como queremos ver. A gota, aquela que ela sugou, quanto tempo demorou ela a fazê-la. E tu, que viste? Mediste o tempo? Há quanto tempo aqui estamos, a discorrê-lo, como novelo de lã, para dobarmos palavras incompletas para entender a neurobiologia que nos assiste em decifrá-lo. 

Pára. O tempo não existe. Não somos, nem sequer aqui estamos. O tempo, disse ela, é a vela que arde até ao fim. E o tempo aqui é mais lento do que o do outro lado, por isso, parece existirmos mais. Nada, não é nada. Não é absolutamente nada. Não entendeste. Não fales. Queda-te em silêncio, de novo. Vamos tentar outra vez. De qualquer das formas, disse ele, nós não somos todos os que aqui estamos. Alguns de nós nunca aqui estivemos. E esta conversa nunca existiu. Nós nunca nos encontrámos.  

Hilda II

-Deveria ter nascido "cara"?
- Como assim?
- "Cara", homem, "gajo", como vocês dizem na terrinha!
- Que foi dessa vez, Hilda?
- Não, falando sério. Deveria ter nascido homem.
- Se cuida, mulher, você não está dizendo coisa, com coisa!
- Van, é verdade! Te juro: daria tudo para ter nascido homem.
- Que desperdício! Não digas bobagens!
- Van, nunca tive tanta certeza de alguma coisa. Tá valendo? Quer saber: é verdade, sim!
- Hilda, o que você andou fumando. Vá, se equilibra. Uns dias melhores, outros nem por isso, se concentra em suas coisas. Vai correr na calçada. Vai na praia de Ipanema, ver uns gatinhos, ver a mulherada pelada, e dar risada disso tudo. Vá, dá risada dos problemas e vê tudo, assim, a meia-distância. Entende, mas faz de conta que não é com você!
- Não estive fumando nada!
- Mas você gosta tanto de homem, como poderia ser um?
- Van, óbvio, né: se tivesse nascido homem, nasceria com hormonas de homem. Mas, quer saber, tanto faz, não é por isso não. Não é por poder fazer da rua um banheiro a céu aberto, que gostaria de ser homem.
- Tá ficando estranha esta conversa.
- Você não entende que a nossa cabeça: homem-mulher funcionam muito diferente? E que é preciso uma série de circunstâncias e átomos coincidentes para que a coisa dê certo?
-Sei! ;)
- Eu não tenho vocação para ser mulher, Van. Tudo é sempre muito dramático, as hormonas, a TPM, é f....
- Te entendo, mas e daí?
- Daí que tudo é muito intenso e isto está doendo para caramba!
- Hilda, relaxa. Haverá sempre problemas na vida. Importante é relativizar.
- Problema é esse, Van. Os homens sabem fazer isso melhor do que nós. Relativizar...E eu detesto esta pessoa.
- Não sejas tão dura contigo Hilda. Isso passa. São 3 dias, uma semana. Tudo vai passar.;)
- Van, eu não quero. Tô cansada.
- Relaxa. Te dou uma semana para voltares a sair com ele.;)
- Tá louca, ele tá namorando com aquela menina, ainda.
- Ai, é? Bom, mas enfim, se concentra em você e as coisas acontecem.
- Olha, não sei. E se eu jogar o tarot para ver o que acontece?
- De novo? Você já sabe que sai sempre a mesma carta.
-Vam'o tentar?


P.S. A Hilda desligou a ligação. Mas aposto que saiu a mesma carta...

Bielman F., naco

Tens sempre as mãos sujas. As reentrâncias das unhas escurecidas. Não te lembras da última vez que as esvaziaste. E os pés, nus, arrastam-se pela calçada, lentos, como se a varressem, como se quisesses deixar um pouco de ti, esfoliando a derme, expulsando pedaços do que já não importa. Esvazias assim o que resta. E, ainda que o cabelo te abunde, desgrenhado, agarrado à raiz na esperança de sobreviver mais um pouco a esse pedaço de naco em que te tornaste, és desprovido de fios, como os da vida, como os do tempo. Uma não-vida, não pode ser avaliada assim. Mas é-o. É-o sempre Bielman. E, hoje, com o vento que te arrastou em ziguezagues pela mesma calçada que tacteias todos os dias (podes ouvir-lhe os segredos como mais ninguém) deixaste-te quase voar. Podia jurar que quase voaste. Levitaste um pouco, confidencia-me. Há muito que não me confidencias nada. Mas estás ali no passeio, silencioso, a ver os carros passar em alta velocidade. E as motas. São as motas que mais te impressionam, irritam-te, deixam-te irascível, inconsequente. Nesses grunhidos que te ouvi, certamente praguejaste algo contra elas. Uma ausência de respeito para pessoas como tu, que deitam o corpo no naco de cimento, em que deitas o naco de ti, imberbe, como se não existisse, à espera que alguma coisa te leve, nem que seja o vento de amanhã, que não virá. Se te falasse, dir-te-ia: “Bielman, amanhã, na meteorologia não haverá vento. Virá a chuva, e a descida vertiginosa da temperatura. Agarra-te ao corpo e ao que resta de ti, para que não voltes a passar frio, para que o bafo que de ti saia não seja o espectro etéreo que disparas dos pulmões para a vida”. Com certeza, responder-me-ias, como Bielman, e eu sei que Bielman não existe, ou está em todos, ou o que resta de nós. “Não há frio que me encolha, ou me mingue o que resta! Sou um corpo gélido, assim parido à nascença, com pulsação antárctida de existir e não ser. Desde que me conheço, deverias saber, sou uma gélida sombra que existe só quando tu me vês”.

domingo, junho 27, 2010

Homem Ultra Mud.Erno [14]

Um agricultor. Cultiva a rama. A conversa pela rama.

sábado, junho 26, 2010

sexta-feira, junho 18, 2010

terça-feira, junho 15, 2010

segunda-feira, junho 14, 2010

Homem UltrA Mud.Erno [12]

Acha que caridade é deixar gorjeta.

Cuidados Paliativos VI


 Feios, Porcos e Maus, na política como no zoo há macaquices, vampirismos, coelhices, gatos oportunistas e ditadura democrática (?)

Tenho a certeza. Os políticos são amigos dos animais. Não há nada de cínico nisto. É a verdade abnegada, factual e comprovada, sem pretensiosismos ou sequer segundas intenções. Há, sim, uma certa solidariedade com o mundo animal no seu mais puro estado. Poderia ser mais fácil dizer que, enquanto animais racionais que somos (?) resgatamos a essência da nossa animalidade intrínseca nos momentos em que nos põem à prova. E isso acontece, sabemos, quando nos esgravatam as feridas, que é a mesma coisa que nos atirarem imediatamente ao ego. Plac. As palavras são balas nele. Quando não atingem o alvo respectivo, deixam, no mínimo, efeitos colaterais. E isso pode ser coisa feia de se ver. 

Na verdade, vão somos muito diferentes dos políticos. Mas acredito que temos de fazer a devida destrinça entre uns e outros. Esqueçamos a objectividade jornalística, até porque, também sabemos, rigorosamente, ela não existe. E com isso colocamo-los no seu devido lugar. São uma classe à parte, basta para isso que a “profissão” lhes atenha uma manifesta exposição pública, o que traz sempre atrelado uma pesada dose de responsabilidade. Como tal devemo-lhes cobrança. Pelas falácias, pelos erros, pelas incoerências. Só não podemos contestar medidas para o bem nação. Até por ela se pode ter um Estado de excepção, por isso, nada nos garante justiça e um sono tranquilo. Tudo pela nação. Em vão. Na retórica há sempre uma certa imunidade. É o jogo pelo jogo. O pragmatismo está fora de prazo. Fora de moda. 

E isso tem tudo a ver com o facto de os políticos serem amigos dos animais. Alguns até bastante esdrúxulos para o nosso imaginário comum. São amigos dos animais por tudo isto: vejo a classe, diariamente, a imitá-los nas suas mais variadas formas. Vá, só pode haver aí uma grande dose de amor pelas espécies. O que, de certa forma, reaviva a tese de Darwin. O evolucionismo está chapado na política. Com uma boa notícia para a Antropologia, e nem por isso para nós: podemos ver esse espectáculo, gratuitamente, em qualquer parte do mundo, desde que estruturado por uma máquina política que nos permita o exercício da arte do palavreio e do logro. Quanto logro! 

Estes animais, perdão, políticos gozam de um belo estatuto de impunidade e imunidade. Quase a mesma coisa, mas há que colocar as coisas no seu devido lugar. Até porque as gralhas, da classe dos que tanto falam sem nada dizerem, nada têm que ver com os vampiros, perdão os morcegos, que se escondem da luz e atacam em busca de sangue pelo breu (por falar nisso já se vacinou contra a raiva? A mordida deles é implacável). E os cães, que tanto ladram, como alguns, sem morder, como que acometidos por um daqueles ataques enraivecidos, desatam a morder para todos os lados. Há ainda os burros, os camelos, as serpentes esguias, as raposas, as lebres, as girafas que tudo espiam, as galinhas a chocá-los, as águias, os ratos, tantos ratos, doninhas fedorentas, as esquálidas minhocas, que não fazendo parte da categoria do grande porte, amigam com as pulgas, as carraças, os piolhos e, no limite, os parasitas. 

Depois há os porcos. No livro de George Orwell eles triunfavam. E falavam. O mais surpreendente é que falam. E andam por aí, nos parlamentos, a dar entrevistas, com as faces rosadinhas, também. Alguns parecerão até toucinhos nesta época do ano. É o calor que voltou e parece ter vindo para ficar. Ah ainda, a nobreza da classe: os gatos, pachorrentos, oportunistas, colados à conveniência de uma negociata ou coligação velada, silenciosa. Talvez pura propaganda como a do Ignacio Ramonet. Essa oculta que todos vemos, mas não ousamos revelar. Parecer-nos-à sempre um pouco mal e despropositado porque o que vemos não pode, necessariamente ser provados. E isto porque há fortes possibilidades de o primeiro-ministro ser dessa classe de felídeo traçado com suíno. Simples de explicar: em conversa, ontem, com o meu pai confirmou-se-me um pensamento que eu e a Carolina já havíamos comentado há um ano do outro lado do Atlântico. 

Dizia-me o progenitor, com cerimónia e seriedade, que ainda assistirá, sem dúvida, a uma outra ditadura em Portugal. Pus-me a pensar no óbvio da conversa, além de já o ter pensado sob outros contornos. Ele continuava: este primeiro é apenas um bode expiatório. Um pau-mandado que obedece a ordens superiores. E essas ordens superiores, pensava eu, vêm do lado tirano que uma Federação como a Europeia. A imposição, as regras rigorosas, os compromissos que não conseguimos cumprir, hoje essencialmente naquilo que é o pilar da união europeia, a económica, e a ditadura alemã, que sempre existiu, para o orçamento comunitário. Mas isso é só uma gotinha no todo. O que realmente assiste a tudo isto, sendo os porcos traçados de felídeos os grandes triunfadores da elite política é que a ditadura já existe. Explico-me: a democracia é também ela uma forma de ditadura consentida, silenciosa, mais nefasta porque encoberta que a autocracia. 

Não falemos de ideologias, mas se efeitos colaterais, de actos concretos. Até pode ser que o primeiro seja um bode expiatório de algo mais concertado a uma escala macro. Que o seja, mas não deixa de ser mandatário de uma ditadura, que está aqui no nosso dia-a-dia. E que parece não haver outra forma de a vencer. Vivemos sob ela, silenciosos, porque tudo  é consentido, pelo bem da nação.  

quando a cultura do onze vira literatura, uma espécie de amor em tempos de cólera

Lisboa, mapa-mundo


As portas deslizam mais rápido e as carruagens estão velhas. Há um mundo ali sentado. Com veias onde corre sangue miscigenado. Linguajares que o ouvido não reconhece, descontextualizados, simultaneamente tão arraigados se o mundo é uma carruagem. Ou um vagão velho. Um vagão velho que carrega documentos em várias línguas. E leva assentos de pano puído, gasto e conforto de mágoas. O mundo conforta-se entre Santa Apolónia e Martim Moniz. Em paragens desconhecidas. No silêncio dos Restauradores. Ali há ruído, cocktail de vozes, e ausência ... porque quem passa nada deixa. Nunca deixámos nada. 

O mundo conforta-se em Lisboa numa linha amarela, vermelha, verde, azul. Como veias. O mundo entranha-se. O globo poderia ser só ali. Tanto mapa de maneiras de ser. E Lisboa é tanto mundo derramado. É Marraquexe, Bangladesh, Europa de Leste, Brasil, Senegal, Cabo Verde, Benim. Haverá Benim no mundo de Lisboa? 

Somos lá véu a tapar-lhe o cabelo. Somos as mãos pardas, o cabelo em carapinha, o dourado dos fios nórdicos, o rasganço dos olhos negros, tão negros, como a pele que somos na rigidez da dele que se conforta no puído onde se senta. Ou nas cores da explosão do tecido. O vagão. Há mundo inteiro se o ouvirmos por ali. O que será mundo sem esta inteireza de uma carruagem velha que passa e liga linhas como veias na cidade? Cidade é isso: veias. Tantas veias coloridas que não vemos em explosão de nacionalidades. O mundo é nada. É tudo sem o ser. Que língua fala Lisboa? Agora é mundo. E leva-o  no vagão velho de cadeiras puídas. Eu vou em pé. Sempre apressada. Talvez eu não seja mundo. Nem de lado nenhum. O que se é quando não se é mundo?

Eva-Desassossego

Podes empacotar tudo, menos o turbilhão. Vá, Eva. Como se embala um turbilhão? Não brinques com coisas sérias. Há fogo a arder e podes queimar-te. Ainda que devagarinho podes queimar-te, como quando arriscas pôr a mão nele por pessoas que juravas a pés juntos poder confiar. É assim que te podes queimar, lentamente, até graus irreversíveis para a derme. Sobretudo a interior. Há danos que se tornam irresgatáveis. E isto lembra-me o dia em que conheci a Eva. Culpo-me, hoje, pelo estado dela. 

Eva estava sentada num banco de jardim no Palácio de Cristal. É. Conheci-a no Porto. Sobretudo na época em que frequentava bibliotecas. Às vezes tenho saudades do tempo em que frequentava bibliotecas. Era mais serena e a vida parecia-me um pêndulo que fazia as vezes de um colagénio da pele. Flexível e com o sábio reajuste das gavetas na nossa cabeça, que vão juntando compartimentos de sabedoria. Há uma certa sapiência na arte de bem gastar o tempo em bibliotecas. Imitamo-las, como depositárias de boa e consolidada memória. Queremos ser elas. Estender-nos às prateleiras, como se nos pudessem folhear.

Foi aí que me comecei a apaixonar por ela, e ao mesmo tempo a traí-la. Ao raio da memória. A Eva pareceu-me o oposto disso. Uma mulher sem a memória. Franzina, tontinha, aérea e com a dose inevitável de uma imaturidade sincera. A vida ainda não lhe tinha dado o suficiente para que percebesse. Fosse lá o que tinha de perceber. Subestimei-a. Faço-o constantemente. Quando nos fazemos o mesmo, caímos no pacato e corriqueiro erro de fazermos exactamente semelhante exercício com os outros. Subestimei-a de tal forma que não lhe vi o livro nas mãos. Era o "Livro do Dessassossego" do Bernardo Soares. Folheava-o delicada e atentamente. Havia naquele olhar dela, aéreo, qualquer coisa de magnético como se roubasse palavras às páginas. Aquele folhear e olhar parecia deixar as páginas daquele livro em branco. O mesmo que o Bernardo fazia comigo. Um curto-circuito. Tábua rasa, reduzindo-me à pequenez de um vazio.

Depois inquietei-me: de onde é que ela conhecia o Bernardo? Levei aquilo tão a sério que nem me apercebi que não podia dizer-lhe que conheci o Bernardo. Ela não iria acreditar. Como iria explicar-lhe que conhecera uma pessoa que morrera antes de eu nascer. Sim, a tontinha, pensaria ela, só poderia ser eu. E, ainda assim, era a mais pura verdade. Cristalina como a água destilada de passar a ferro. E passo tantas vezes a ferro os pensamentos da minha tábua de esticar sentimentos, que me esqueço que com o uso a pureza vai-se.

Estico-os. Enrugam-se, mas lá vou eu estendê-los ao comprido, prender-lhes as pontas na borda da tábua para maior precisão; borrifo-os e tudo se suaviza a água quente, destilada, cristalina, sincera. Água em estado puro. Tal como o segredo que carrego. Sim, Eva. Eu conheci o Bernardo Soares. E esse livro, mulher, vai levar-te ao abismo: desses de danos irreversíveis. Olha o lodo em que te podes meter se o levares a sério. Ele não era um homem fácil, sei-o. Esse abismo, esse medo, essa vertigem, esse lamaçal de sentimentos em violenta areia movediça vão fazer mossa. E que mossa! Entender a vida como uma série de equívocos mal resolvidos e trazê-los ao prato do dia, causa indigestão crónica. Isso vai-te subir à cabeça. Causar suores frios, arrepios que ardem. O Bernardo não te vai fazer nada bem. Não tens espinha para ele.

Eva, já te foste. Ouve-me. Esse livro é um tratado sobre o turbilhão da alma humana, em auto-análise acto contínuo. Riste-te. Não me levaste nada a sério. Nem percebeste nada do que quis dizer quando te disse que ainda falo com o Bernardo. Há ele em mim, que me torna menos fácil, e mais desassossegada.

Para ti tudo se pode embalar. Mesmo o desassossego. Não sei como o fazes; ou parece conseguires fazer. As malas que carregas entre uma cidade e outra levam sempre sentimentos. E tu levas-te lá sempre diferente. Pois, Eva. É verdade. Há sempre as chamas violentas que te vão queimando e tu ignoras. Depois vem isso. O turbilhão. E tu lidas assim com o turbilhão como se o pudesses empacotar. Não, Eva. Já é tempo de saberes e de eu te contar que o Bernardo fez um tratado sobre o turbilhão para poder suportar melhor a vida e um não-ele. Ele não era ele, para ser mais um pouco e poder aguentar as dores das dobradiças das portas que se fecham. Ele fez um tratado como deve de ser. Foi por ele que te tornaste assim. Ele agora também te tem.

Tem-te a arder de febre por essa água quente do ferro que tentas manipular, enquanto na tábua há trapos. Trapos Eva. E quando há trapos assim, foge-te o ferro para a mão que o segura, quando tentas estendê-los ao comprido. É Eva. Assim podes queimar-te. Mais valia não teres conhecido o Bernardo. Ele agora há em ti. Estás preparada para o desassossego, acto contínuo.

sábado, junho 12, 2010

rotação Clarice


Clarice contou-me, certa vez, que ele lhe pediu que ficasse mais um pouco. Só mais um pouco. Em vagar. Rotação Clarice. A mim nunca ninguém me pediu que ficasse mais um pouco. Deve ser intolerante a minha presença. Continuo, por isso, a invejar Clarice. Ela tem uma dilação que lhe legitima o nome em tempo-Clarice. É. Há um tempo que é dela, agarrando os outros para aquele enredo vertiginoso e fofo. Apneia, Clarice. É sempre a apneia. Como gostamos sempre de mergulhar no teu mundo, terno, tenro, desses seios fartos que nos acolhem a garra e nos fazem resvalar em suspensão erudita. É. O tempo contigo, Clarice, é erudito, mesmo que em silêncio, querida. Há lirismo. Um lirismo terreno, porém.

Há nesse abraço um fleuma servido a vida. Há vida. Há essa vida que é nossa, Clarice. Talvez por isso ele te tenha pedido para ficares mais um pouco. Podias fazer um cigarro. Desses de enrolar à mão. Levava mais tempo. Fazias-lhe companhia. E ele não pensava em mais nada. Não há nada para pensar. Temperatura e intensidades. Pele-com-pele. Olho-no-olho. Ofegar. A vida é ofegar sem amanhã. O tempo a dois, deles, Clarice. E tu fizeste um cigarro. Desses de enrolar à mão, passar a língua, molhar, meter o filtro, apartar o tabaco, bater e flap. Vida combustão.

A vida de um cigarro pode ser o tempo que demora um beijo. Fizeste-lhe companhia. Perdeste-te. Apaixonaste-te Clarice. Apaixonaste-te, repetes. O enternecimento do silêcio. Só o tempo psicológico de ele te ter por perto. Em palavras mudas. Silêncios. Porque haveria dor se falasses. É essa terna mudez que não é tua e dás, com respeito para não ferir. Clarice: a absoluta lentidão do cigarro é o tempo que lhe quiseres dar. A voracidade dele pela ansiedade. A celeridade da combustão do papel, mais veloz que o trago nele, queimando, ardendo tempo. E sabes que a distância desse dia nada importa. A distância queima, como cigarro ardendo. Há quem mais perto esteja estando longe.

Clarice, não podes ficar mais um pouco. Mas o tempo é o que ele te quiser dar. Faz um daqueles cigarros. Talvez, assim, fiques mais um pouco Clarice. Mesmo indo, pode ser que fiques, em rotação Clarice.

segunda-feira, junho 07, 2010

Homem UltrA Mud.Erno [11]

Estão em litígio com o banco. O cartão de crédito é o melhor amigo.

domingo, junho 06, 2010

interrompemos a programação para um breve comunicado...


Até há bem pouco tempo, o problema era a Gripe A (variante H1N1). Depois dela e de uma série de outras invenções da indústria farmacêutica chegará, em breve, a verdadeira (velha) doença (incurável), síndroma F (variante PEC - Pátria Em Chuteiras), mais ou menos crónica, a nível mundial, e reinventada pela indústria mediática a cada 4 anos.

No próximo mês e meio, a síndroma (substantivo feminino) provocará graves sintomas de alienação. Suores frios (quase morte súbita: ranger os dentes, morder os lábios), taquicardia ("Vai-vai-passa a bola!"), prática de vocabulário rebuscado (seu filho-da-puta, cabrão, chulo,  por aí) febre, muita febre, e a temperatura sempre a subir: levando mesmo ao delírio de vestir roupa ridícula e usar cachecóis quentes em pleno calor). Haverá, ainda, vozes grossas, gritos (gooooooooooolllllllloooooooooooooo) e alguma afasia, depois; reacções agressivas ("Cala-te, não vês que estou a ver o jogo!") peito apertado (aiiiii!), distúrbios cardiovasculares, bipolaridade, ("Ainda vamos ganhar este Mundial!"; "Com este seleccionador de m.... não vamos a lado nenhum!") barrigas inchadas (o excesso de lúpulo tem destas coisas: Slaaaap, flut; traz mais uma!!!!), flatulência, sinais de insanidade, alucinações. 

E ainda, por outro lado, capacidade Raio-X para ver mais além que o árbitro ("Não foi falta, este gajo está doido!"), charlatanismo nas vidências (prognósticos só no fim do jogo), e ainda arrogância: ahhhh, somos todos extraordinários treinadores de bancada, a maioria de sofá, quero dizer.

Tudo por causa da disputa de uma bola - que pelos vistos este ano além de high tech, anda a  causar graves dores de cabeça aos jogadores - no relvado. É a maestria da estratégia, dir-me-ão.  A beleza do espectáculo! Show de bola!!!!!

Se perceber que alguém apresenta os sintomas supracitados, tem duas soluções: 1. Melhor nem chegar perto (até porque haverá pessoas próximas que não reconheceremos); 2. Se não podes vencê-los, diz o adágio popular, junta-te a eles. Relaxa e goza. Vai passar!

Fotografia e Lápis, por Ben Heine

quinta-feira, junho 03, 2010

Cuidados Paliativos V

solidariedade, o mesmo que esmiuçar os defeitos dos outros e ainda dizer que estávamos a brincar (diz que é um elo mais fraco)


Há dias ouvi dizer que nós por aqui somos pouco solidários. Nunca me tinha ocorrido pensar nisso, sob a lógica do peso da crítica, até ter começado a julgá-la com distância: o que será que isso quereria dizer e de que forma isso se reflectiria na nossa portugalidade? A conclusão foi aziaga, pouco recomendável. Ainda assim, um exercício de Antropologia.

Em geral, somos sim, pouco solidários. Nas mais pequenas coisas. Nas essenciais, talvez. Somos amigos dos nossos amigos, em princípio. OK. Mas isso não significa solidariedade. Aderimos a causas, inventamos várias até no Facebook - todas absurdas, vamos combinar! - somos os primeiros a criar uma conta para tragédias; e por aí. Mas isso também não faz de nós solidários. Nem chega perto. O que me leva a concluir que somos, isso sim, oportunistas. Solidariedade é outra coisa e bem diferente. Tem de estar intrínseca e abnegada.

Por isso, falo em geral, numa coisa arraigada no sangue das veias rijas da Antropologia que nos tece. E não dos momentos em que empurramos a cadeira de rodas, em que ajudamos o invisual a atravessar a rua (que na maioria das vezes nem precisa que o atravessemos, é apenas o nosso pretensiosismo de cultura do coitado que nos impele, isso sim intrínseco); estamos prontos a dar direcções aos turistas se os vimos desorientados (antes não o fizéssemos, eles na verdade não entendem nada -nem nós!: "Está a ver aquele posto de gasolina lá ao fundo da rua? Não tem nada a ver. Tem de virar à direita antes dele), ouvimos pacientemente a velhinha do lado a falar das doenças que a tece. E até chegamos a pensar que, por isso, fizemos a nossa boa acção do dia. Solidariedade que a é nem sequer se lembra de invocar que é uma boa acção,  quanto mais quantificá-la. Em síntese: nada disto faz de nós solidários. Chumbamos no teste, culturalmente, com distinção!

Se vimos alguém carregado no autocarro cheio de gente, quantos de nós, sentados, ainda perguntamos se quer que lhe segure na coisa? Fingimos muitas vezes não estar atentos ao sofrimento do outro. Temos pouca paciência. Se alguém faz sucesso, criticamos-lhes os tiques, os desaires, as frustrações.  Procuramos o mínimo sinal de fracasso, para fazer disso notícia. Para propalar mais! Invejamos. Humilhamos, indelevelmente. Somos intransigentes. Intolerantes. 

Se alguém expõe alguém é quando o nosso conceito de solidariedade mais se empola: não nos fazemos rogados de entrar na contenda e esmiuçar em colectivo (até porque solidariedade não significa, afinal, adesão ou apoio a uma causa?)
Na escola, enquanto adolescentes, sobretudo, começamos a perceber o que é a mesquinhez e a inveja  e que, para sobreviver temos de aderir a grupos, sem jogos de diplomacia possíveis, ou estaremos sempre condenados ao isolamento ou à chacota. A coisa prolonga-se, depois, na vida adulta. E com o enrijecer tornamo-nos menos solidários. De laços líquidos. Convém não atar muito que é para quando desatarmos quase não se note. Em solidariedade, fazemos isso demasiadas vezes.

Invejamos, somos mesquinhos, vetamos o talento dos outros, boicotamos, dizemos que à partida nada vai dar certo, somos pessimistas. Não sei qual o povo mais solidário, se isso poderá ser mais biologicamente intrínseco do que sei, mas já vi, noutras culturas, nas pequenas coisas, mais sinais de solidariedade do que o ambiente que nos faz gente por aqui. E, talvez por isso, a antologia na nossa portugalidade seja escrita em silêncio, a tinta cinzenta, e que, parece, fingimos ter tanta dificuldade em perceber. Talvez, por isso, nunca mudaremos para um poucochinho melhor. Quem sabe, um dia destes, não haverá uma causa dessas  ("vamos mudar portugal, a começar pelo que entendemos de solidariedade") que vire moda, e aí, no elo da corrente, nos deixemos ir, em solidariedade, porque até é giro.